Rouba daqui, rouba de lá

Adoro quando construção musical e letra dialogam, se complementam e compõem uma história. Rubato, do Chico Buarque e do Jorge Helder, é assim.

Rubato (roubado em italiano), ou tempo rubato, é um recurso que cantores e instrumentistas podem usar com liberdade (mas que também pode vir indicado em partitura) pra dar mais efeito à interpretação. Trata-se de acelerar ou desacelerar, roubando o tempo de uma nota e colocando em outra. No caso do canto, a voz segue em tempo diferente do tempo do acompanhamento e fica muito bacana . 

Pois bem, a canção de Chico e Jorge tem rubato não só na música. A letra fala de ladrões de composições que afanam canções alheias pra arrebatar os corações de suas namoradas. E a evolução da melodia na parte instrumental me traz a cena hilária – um, afoito pra mostrar a canção a Aurora; outro agindo rapidamente na surdina pra roubar a obra e dedicá-la a Amora. No final, um terceiro se apropria da música pra seduzir Teodora.  Ora, ora… Não é esse o fim das canções de amor?

Para abrir este blog, resolvi falar de música. É que essa arte sempre me fez vibrar – desde muito pequena ouvia minhas irmãs tocando violão e eu cantava junto a plenos pulmões, mesmo quando não sabia direito a letra (se lembram do “violão tangente”, meninas?). Estudei piano durante 6 anos, ganhei meu primeiro salário como pianista, cantei no coral do conservatório, da escola, da faculdade, no chuveiro, limpando a casa, lavando roupa, dirigindo, vendendo videokê.  Não escolhi a música como profissão, mas ela permeava meu dia a dia e os melhores roteiros que escrevi pra facul eram sobre ela. Mais tarde, outras tantas atividades foram surgindo, uma rotina non sense se estabelecendo e eu, tolamente, deixei os acordes pra lá durante um longo período. Até que, na semana passada, fui a um show no Sesc Osasco – Virgínia Rosa Canta Itamar Assumpção e Outros Negões. O que foi aquilo, minha gente? Uma mulher de voz poderosa e grande presença de palco, interpretando com muita personalidade canções fortes de Itamar, Luiz Melodia, Monsueto. Imediatamente, memórias de lugares, pessoas e sensações voltaram como uma onda forte, e levada por aquelas palavras e sons, fui da doçura à indignação, do choro ao riso, da melancolia à excitação. Fui ao encontro daquela vibração primordial.